"Sou composta por urgências: minhas alegrias são intensas; minhas tristezas, absolutas. Me entupo de ausências, me esvazio de excessos. Eu não caibo no estreito, eu só vivo nos extremos." Clarice Lispector

"Eu acredito que a cadência e a harmonia certas no momento certo podem despertar qualquer sentimento, inclusive o da felicidade nos momentos mais sombrios’’ Frase do suicida Vinícius Gageiro Marques

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O silêncio amoroso de minha solidão

O problema foi que ninguém me avisou que a vida possui um doce gosto amargo do desafio de sofrer. Sofre-se para ganhar, para perder, para amar. E a única certeza que se tem é que, após um ligeiro degustar do alcance, se tem de se preparar para outro... desafio.
A vida é assim... desconcertante. Não só isso, mas penso que se a designasse em adjetivos, perderia longo período escrevendo coisas que não se resumiriam num parágrafo.
Ninguém me disse que viver é sofrer. Mas se me dissessem, não sei ao certo se o aviso cumpriria o seu papel de prevenir-me de minhas vontades concernentes à busca do que simploriamente conceituo como felicidade. Sofrer é um verbo infeliz. Porque todas as instâncias de satisfação têm de passar por ele. Não importa a distração entre mascar um chiclete ou ler uma revista. O sofrer logo chega, com aquele sorriso sombrio de quem não deseja me permitir viver com um mínimo de tranqüilidade e que representa com fidelidade o papel do amigo amicíssimo que pronuncia: “... se precisar... estarei aqui”
Preciso sofrer? O amadurecer também está subordinado a este processo. Não sei, mas de tanta convivência, sofrer deixou de ser uma necessidade de aprendizagem, mas passou a ser uma inerência. Não importa me esfregar com sabonete anti-séptico por horas: a bactéria do sofrer sempre está perniciosamente a me corroer, por dentro e por fora. Implacável na arte de me fazer debruçar em lágrimas nos ombros de minha parceira: a solidão.
Talvez a minha única amiga mais sincera seja a solidão. Tenra e fiel. Quando estou com ela, meus muitos eus se encontram, pois ela é quem me aguarda ao final da festa, quando as ilusões são irrompidas pelo desajuste do real.
Muito simples, ela. Resumidamente, traz consigo a felicidade triste de eu ser só. Num mundo em que nunca se elucida o meu sentido, ela a única que, no silêncio, faz-me contemplar a mim mesmo.
Ela está certa: o silêncio é o que nos resta quando se tem o sofrimento como algoz. Não sofrer é uma impossibilidade, é uma transgressão à igualdade que nos faz ser parecidos como Filhos de Deus. Mas ao mesmo tempo traz a desunião, a discórdia: sofrer sempre só, nunca partilhar. Por que unir-se aos outros, se a peleja é só minha?
Viver é um desafio triste, mas bom cupido, pois ao final do momento feliz, restamos eu, eu mesmo e ela... solitariamente.