Oceanus das Correntezas
porque meu momento atual é completo... cheio de ausências...
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
O silêncio amoroso de minha solidão
A vida é assim... desconcertante. Não só isso, mas penso que se a designasse em adjetivos, perderia longo período escrevendo coisas que não se resumiriam num parágrafo.
Ninguém me disse que viver é sofrer. Mas se me dissessem, não sei ao certo se o aviso cumpriria o seu papel de prevenir-me de minhas vontades concernentes à busca do que simploriamente conceituo como felicidade. Sofrer é um verbo infeliz. Porque todas as instâncias de satisfação têm de passar por ele. Não importa a distração entre mascar um chiclete ou ler uma revista. O sofrer logo chega, com aquele sorriso sombrio de quem não deseja me permitir viver com um mínimo de tranqüilidade e que representa com fidelidade o papel do amigo amicíssimo que pronuncia: “... se precisar... estarei aqui”
Preciso sofrer? O amadurecer também está subordinado a este processo. Não sei, mas de tanta convivência, sofrer deixou de ser uma necessidade de aprendizagem, mas passou a ser uma inerência. Não importa me esfregar com sabonete anti-séptico por horas: a bactéria do sofrer sempre está perniciosamente a me corroer, por dentro e por fora. Implacável na arte de me fazer debruçar em lágrimas nos ombros de minha parceira: a solidão.
Talvez a minha única amiga mais sincera seja a solidão. Tenra e fiel. Quando estou com ela, meus muitos eus se encontram, pois ela é quem me aguarda ao final da festa, quando as ilusões são irrompidas pelo desajuste do real.
Muito simples, ela. Resumidamente, traz consigo a felicidade triste de eu ser só. Num mundo em que nunca se elucida o meu sentido, ela a única que, no silêncio, faz-me contemplar a mim mesmo.
Ela está certa: o silêncio é o que nos resta quando se tem o sofrimento como algoz. Não sofrer é uma impossibilidade, é uma transgressão à igualdade que nos faz ser parecidos como Filhos de Deus. Mas ao mesmo tempo traz a desunião, a discórdia: sofrer sempre só, nunca partilhar. Por que unir-se aos outros, se a peleja é só minha?
Viver é um desafio triste, mas bom cupido, pois ao final do momento feliz, restamos eu, eu mesmo e ela... solitariamente.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Sobre a insólita arte de escrever
Não gosto de escrever porque sou um tanto egoísta. Gosto de fazer, de produzir pensamentos e conhecimento como as índias parem seus filhos: solitário, com a dor irradiando na alma toda, mas num sossego de poder gritar sem que o mundo te possa ferir ou questionar.
Detesto as invasões. Em especial aquelas anunciadas pelo sentimento de estranheza que as pessoas geralmente fazem quando você se encontra tranquilo, alegre ou triste, e decide se revelar por um texto, seja ele um choro ou uma fala imprecisa.
Não gosto de escrever.E não preciso prestar contas ao mundo de minha consciência sobre o mundo das coisas. Mesmo que, caro - possível - leitor, minha prolixidade ou minha verbosidade um tanto bacharelesca seja um tanto contraditória, não se engane: ela muito mais esconde que revela. Pois, para mim, escrever não é elucidar. É anunciar um novo mistério de um mundo dialético, que se chama ser humano.
domingo, 18 de julho de 2010
No silêncio, somos agraciados ao ouvir a voz de Deus
Mas esta leitura do livro de Samuel, precisamente no capítulo 3, vem informar como Deus procede em seu chamado a nós e como devemos agir com Ele.
Para começar, vamos a um retrospecto. Samuel, cujo nome deriva de "Seu nome é Deus”, ou "Nome de Deus", tem significado contextual de "do Senhor o pedi". Isso porque Ana, sua mãe, não podia ter filhos. Humilhada pela outra esposa – Penina - de seu marido, Elcana, resolveu pedir um filho ao Senhor, sob a promessa de o nascido filho ser um nazireu e servir ao templo. Mesmo questionada em sua oração, Ana não hesitou em prosseguir na oração e perseverou até que Deus concedeu a ela um filho, e lhe pôs o nome de Samuel.
Ana cumpriu o que prometeu, mas não tinha ainda a noção da grandiosidade dos projetos de Deus na vida de Samuel e do povo de Israel como um todo. O futuro profeta acompanhada o levita Eli nos serviços ao templo.
Num dia, no silêncio da noite, Deus fala com Samuel. Por incessantes três vezes, até que Samuel reconhece a voz do Senhor. E Deus revelou não só a si mesmo, como também os seus projetos para o povo de Israel. Samuel ouviu, acolheu a Deus e assumiu a responsabilidade de ser profeta ungido do Senhor, com humildade e coração decidido.
A vida de Samuel ilustra a nossa conversão. A revelação nos é predisposta por Deus em todos os dias de nossas vidas. O fato é que nunca silenciamos o suficiente para ouvir com sinceridade o que Deus quer de nós, e sempre renunciamos acolher com humildade as maravilhas dos propósitos de Deus para cada um.
Preferimos os barulhos do cotidiano que por si só são confusos, nada nos dizem e que apenas palpitam, nunca nos dão certezas.
Ouvir a voz de Deus é muitas das vezes ir de encontro com a nossa mais dura verdade e receber o convite da transformação do Senhor em nosso viver. Também é admitir que nossa vida não é nossa, mas ela deve estar a serviço a Deus no próximo.
Precisamos silenciar. Abrir nossos corações para as revelações que o Senhor tem a nos dar, sem reservas.
Esse instante em que Deus dialoga conosco pode ser um divisor de águas na vida de cada um; ela pode ser transformada por Seu amor infinito e incondicional.
E aí encontraremos a resposta para nossa maior pergunta, relacionada acima em nossa discussão. Se alguém inventou algo, e este for dado a você, não pergunte como funciona a outra pessoa, que pode te responder livremente com palpites do tipo: “Engole!”, “Amarre em seu sapato!”, ou ainda “Sei lá! Talvez, coloque num liquidificador e faça uma vitamina!”. A melhor pessoa que pode esclarecer o funcionamento do objeto é o próprio inventor.
Conosco é a mesma coisa. Somente podemos saber do real motivo de nossa existência se perguntarmos para o nosso Criador: o próprio Deus. E somente saberemos disso quando nos dispusermos a Ele, abandonando nossos (pre) conceitos, vontades, esvaziando de nós mesmos, ouvindo e acolhendo a Sua Palavra de Salvação para todos nós.
domingo, 6 de junho de 2010
A parábola do Filho Pródigo: a autoconsciência enquanto princípio de mudança
É muito comum acordarmos pela manhã, sentindo o ar fresco inundar nossas almas, e quiçá, perceber que Deus preparou para nós mais um dia. Que bom que Ele nos deu mais um dia, não é mesmo? Deste modo, enfim, o que costumamos fazer é decidir sobre nossas atitudes quanto às idealizações em busca incessante pela felicidade. Seja esta apenas ir à faculdade estudar, ou ir à biblioteca, ou então trabalhar para garantir um dinheiro ao fim do mês para assegurar nosso bem-estar, ou qualidade de vida, seja os termos que se queira utilizar. Aí, no fim do dia, apenas o sono e o planejamento do que se deve fazer amanhã.
E nem percebemos que pessoas participam de nossas vidas, passam por nós e não damos atenção. Afinal, estamos acostumados a nos ver como o coelho da Alice (de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol), e sempre dizemos ao outro e a Deus, olhando para o relógio do celular: “estou atrasado, estou atrasado...” E expressões do tipo: “Liga outra hora” ou “Outro dia a gente se vê” estão cada vez mais freqüentes em nosso cotidiano.
De vez em quando esquecemos as propostas que Aquele que tudo sabe nos apresenta. As orações são parcas, o louvor costuma ser comprometido. O terço, a novena e outras devoções são quase impossíveis. “Fica para outro dia, quando estiver mais ‘desaperriado’”. E, depois de algum tempo, não nos permitimos fazer com que Deus fale em nossas vidas. Ou diga algo sobre o que nós precisamos mudar. Ou sobre em que aspecto precisamos crescer.
A percepção dos sinais divinos nem se tem mais notícias. E, em busca de nossas realizações palpáveis, nos esquecemos de Deus. Afinal de contas, sua função parece ser apenas fazer com que tudo concorra para o certo na concretização daquilo que desejamos.
E, por algum tempo, as provações passam a ser empecilhos, em vez de ser oportunidades de mudança de direção ou de demonstrar perseverança a si mesmo. E o que dizer, o que fazer? Não se sabe ao certo. Só se sabe que todas as coisas devem passar logo, porque se assim não for, o que vai ser de meu futuro? Mas, o que é o futuro? Ele ainda não existe, nas palavras sábias de Santo Agostinho, mas teimamos em visualizá-lo antecipadamente, sem o menos perceber que os momentos únicos de nossas vidas passam por nós, que todos aqueles que passam possuem seu grau de importância, tanto em nossa existência, quanto em nossa essência.
O outro diz algo que não nos agrada. E daí? “Ele nada sabe de minha vida...” E nem percebemos que ele sente nossa falta. E, levando adiante esta análise, Deus sente nossa falta? Pode ser que sim, “mas com certeza vou rezar quando chegar o fim (ou até mesmo o começo) do dia, pois caso contrário, minha vida, que está – supostamente, frise-se - em suas mãos pode fracassar, Ele pode castigar”. E perdemos a noção de autoconsciência, tão necessária em nossas vidas, mas se executada, nos oferece grandes realizações.
Para compreender como ocorre este processo difícil na vida de qualquer ser humano, será utilizado como parâmetro de análise a parábola do Filho Pródigo, um dos mais conhecidos textos da Sagrada Escritura.
A passagem narra o episódio em que o filho mais jovem decide, por si mesmo, tomar rumo em sua própria vida. Pede então ao Pai a sua parte da herança. Mas se poderia pedir herança a alguém que ainda não morreu? A resposta parece complexa.
O texto não se refere propriamente ao aspecto material. A palavra herança, no grego, tem a mesma raiz da palavra substância. E substância é aquilo que substá, que subjaz à natureza do homem enquanto ser. Portanto, uma das coisas que o Pai poderia dar ao filho, inevitavelmente, era a autonomia no exercício de seu próprio livre-arbítrio. O filho mais novo, então, reclamava sua liberdade de jovem, embaçada supostamente pela imagem do pai.
O pai, logicamente, não nega. Afinal, quem faz este tipo de solicitação se lança a exercer seu livre-arbítrio em plenitude, no desbravamento de novos horizontes e possibilidades de auto-realização. Mas resta uma pergunta: será que o jovem está preparado para assumir suas responsabilidades se nem ao menos tem a idéia de sua dimensão?
Acontece o previsível. O rapaz experimenta o inseguro, aquilo que nunca tinha alcançado antes, é certo. Mas não soube como reagir aos desafios que as próprias escolhas impunham à sua existência. Sua liberdade não é consciente, tampouco responsável. E, como agravante, a própria vaidade e o orgulho excessivo o impedem de recuar e tomar rumo a uma nova direção.
A miséria e a fome se alastravam, como as conseqüências inesperadas assustam a vida daqueles que não sabem assumir as próprias responsabilidades.
O garoto ainda desejava se fartar das vagens que os porcos comiam, ao pedir ajuda a outrem. Todos recusavam. É ultrajante como um egoísta trata outro egoísta, que tenta sobreviver ao peso da própria culpa em descoberta, ainda que disposto a submeter-se à lama do pecado.
Após isso, o inesperado acontece. O rapaz reconhece o seu erro. Uma coisa que pode parecer nem tanto fácil, mas fundamental para a mudança de atitude, como também a da própria vida.
O rapaz “... entrou em si, dizendo a si mesmo: Quantos operários de meu Pai têm pão de sobra, enquanto, eu aqui, morro de fome!” (cf Lc 15, 17). Lembrou-se dos confortos que tinha ao lado do único que realmente se importava com ele, que sempre quis protegê-lo e dar-lhe segurança. Em outras palavras, o jovem tomou consciência do tamanho do próprio egoísmo. Se o Pai, ou qualquer outra pessoa o acusasse de injusto ou de egocêntrico, talvez nem refletisse sobre o assunto. Mas foi ele próprio quem descobriu a dimensão de sua imaturidade. Então, se viu forçado a mudar.
Decide voltar para aquele que com certeza estaria à sua espera. O Pai o perdoa sem deixar o rapaz falar todo aquele exercício de humildade que outrora ensaiou. O pai deseja festejar a autodescoberta do rapaz, mais seguro e autoconsciente. Haveria espaço para outros erros? Talvez... Mas, com certeza, o mais novo rapaz sabia a quem recorrer num momento de indecisão, ou de perigo. Some-se a isso o fato de que sua consciência o impediria de tomar atitudes precipitadas.
E este texto fala realmente de nós mesmos, pois a palavra parábola é híbrida de dois radicais: para, que significa ao lado de, e bola que significa além de. Portanto, parábola é tudo aquilo que está além do que se apresenta o lado. Noutras palavras, é tudo o que está além de qualquer comparação. Somos imaturos e nada sabemos, ou muito pouco sobre nós e sobre a vida. Mas podemos crescer frente aos desafios que a vida nos impõe no momento em que nos lançamos conscientemente no exercício da eterna auto-superação.
Contra isso, somente se decidirmos ser o filho mais velho, que não percebeu a grandeza do gesto de verdadeiro acolhimento do Pai, e tinha da figura desse um sinal de dependência, sem nem mesmo se dispor ao conhecimento de si, e tudo aquilo que tal prática impõe. Sempre tomado pelo ressentimento numa vida sem novidades e infeliz.
Portanto, não tenhamos medo em errar, mas nos empenhemos em caminhar lenta e acertadamente. Mudamos quando percebemos quem somos nós e vemos o que realmente precisa mudar, pois sabemos da incerteza do futuro e que a verdadeira vida implica em eterna mudança, em busca da perfeição, que é Deus. E o Pai, não importando o caminho que decidamos percorrer, sempre estará à nossa espera...
Oceanus das Correntezas
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Educando-(se ou nos?) Parte I

Professor contra aluno???
É bastante comum ver em sala de aula uma relação professor/aluno nem um pouco amistosa. Talvez possa ser culpa de ambos, mas falta em muitos profissionais da educação a consciência de que a tarefa de educar para a vida começa neles mesmos. Recebe-se na escola todo tipo de clientela. Da mais cordial com pais presentes até a mais mal-educada com família distante.
O professor pode ausentar-se desse fato e tratar todos os alunos como se fossem os mesmos, sem respeitar seus desafios e ignorar seu comportamento como resposta ao desafio de sua própria existência?
Não é uma boa saída pois, antes de tudo, até mesmo o aluno mais mal-educado, turrão e briguento, busca no professor um amigo, com quem possa partilhar – talvez – um pouco de sua própria vida, muitas vezes misteriosa, e por isso mesmo, insegura.
Sou educador e não vejo isso como um romantismo, mas como oportunidade transformadora na vida de ambos. E o melhor disso tudo é que eu, em minha sala de aula, não preciso representar para meus alunos. Sou quem sou, sem máscaras. Humano, porque tenho família, amigos, gosto de chope no fim de semana, às vezes adoeço, já fiquei sem dinheiro na carteira e choro por amor também. Assim como eles. Altero pouco o mundo deles, mas estou sempre presente e posso oferecê-los mais uma alternativa.
Acredito que assim também posso fazer com que eles tenham autonomia em suas próprias vidas, e que também tenham responsabilidade em suas escolhas, assumindo as conseqüências. Não sei, simplesmente, ser educador de outra forma. Eles são extensão minha e não me sinto realizado tolhendo seus pensamentos e ignorando suas realidades.
Oceanus das Correntezasdomingo, 10 de janeiro de 2010
Oráculo Titânico I: Ponthos, o conselheiro
Ponthos deseja a você acima de tudo, pureza de coração... Que você possa se fazer renascer nesse dia uma nova criança com o espirito puro e belo que elas têm... Desejo êxito na sua caminhada e que você continue tendo essa força de renascer e de dar vida para aqueles que mortos se encontram... Felicidades meu amado amigo! Nos vemos no Labirintos de Chronos...
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Literaturando...
Partida
Prometi conceder em tua presença
Todo o amor contido nesta vida
Mas, ao sentir tua amarga ausência
Chora minh'alma tua doce despedida
Chora triste minha turva visão
As indeléveis lembranças de nosso conjugado tempo
De sonhos e poesias em cada estação
Vividos com ternura, felicidade e invento
Mas, em nossa existência tudo finda
Dissolve-se em doloroso e sentido pranto
Em não saber o dia de tua vinda
Partiu-se um maravilhoso encanto
Uma partilha terna e linda
De vida, de sonhos, de amor e tanto.
Oceanus das Correntezas