“Ele entrou em si...” Lc 15, 17a
É muito comum acordarmos pela manhã, sentindo o ar fresco inundar nossas almas, e quiçá, perceber que Deus preparou para nós mais um dia. Que bom que Ele nos deu mais um dia, não é mesmo? Deste modo, enfim, o que costumamos fazer é decidir sobre nossas atitudes quanto às idealizações em busca incessante pela felicidade. Seja esta apenas ir à faculdade estudar, ou ir à biblioteca, ou então trabalhar para garantir um dinheiro ao fim do mês para assegurar nosso bem-estar, ou qualidade de vida, seja os termos que se queira utilizar. Aí, no fim do dia, apenas o sono e o planejamento do que se deve fazer amanhã.
E nem percebemos que pessoas participam de nossas vidas, passam por nós e não damos atenção. Afinal, estamos acostumados a nos ver como o coelho da Alice (de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol), e sempre dizemos ao outro e a Deus, olhando para o relógio do celular: “estou atrasado, estou atrasado...” E expressões do tipo: “Liga outra hora” ou “Outro dia a gente se vê” estão cada vez mais freqüentes em nosso cotidiano.
De vez em quando esquecemos as propostas que Aquele que tudo sabe nos apresenta. As orações são parcas, o louvor costuma ser comprometido. O terço, a novena e outras devoções são quase impossíveis. “Fica para outro dia, quando estiver mais ‘desaperriado’”. E, depois de algum tempo, não nos permitimos fazer com que Deus fale em nossas vidas. Ou diga algo sobre o que nós precisamos mudar. Ou sobre em que aspecto precisamos crescer.
A percepção dos sinais divinos nem se tem mais notícias. E, em busca de nossas realizações palpáveis, nos esquecemos de Deus. Afinal de contas, sua função parece ser apenas fazer com que tudo concorra para o certo na concretização daquilo que desejamos.
E, por algum tempo, as provações passam a ser empecilhos, em vez de ser oportunidades de mudança de direção ou de demonstrar perseverança a si mesmo. E o que dizer, o que fazer? Não se sabe ao certo. Só se sabe que todas as coisas devem passar logo, porque se assim não for, o que vai ser de meu futuro? Mas, o que é o futuro? Ele ainda não existe, nas palavras sábias de Santo Agostinho, mas teimamos em visualizá-lo antecipadamente, sem o menos perceber que os momentos únicos de nossas vidas passam por nós, que todos aqueles que passam possuem seu grau de importância, tanto em nossa existência, quanto em nossa essência.
O outro diz algo que não nos agrada. E daí? “Ele nada sabe de minha vida...” E nem percebemos que ele sente nossa falta. E, levando adiante esta análise, Deus sente nossa falta? Pode ser que sim, “mas com certeza vou rezar quando chegar o fim (ou até mesmo o começo) do dia, pois caso contrário, minha vida, que está – supostamente, frise-se - em suas mãos pode fracassar, Ele pode castigar”. E perdemos a noção de autoconsciência, tão necessária em nossas vidas, mas se executada, nos oferece grandes realizações.
Para compreender como ocorre este processo difícil na vida de qualquer ser humano, será utilizado como parâmetro de análise a parábola do Filho Pródigo, um dos mais conhecidos textos da Sagrada Escritura.
A passagem narra o episódio em que o filho mais jovem decide, por si mesmo, tomar rumo em sua própria vida. Pede então ao Pai a sua parte da herança. Mas se poderia pedir herança a alguém que ainda não morreu? A resposta parece complexa.
O texto não se refere propriamente ao aspecto material. A palavra herança, no grego, tem a mesma raiz da palavra substância. E substância é aquilo que substá, que subjaz à natureza do homem enquanto ser. Portanto, uma das coisas que o Pai poderia dar ao filho, inevitavelmente, era a autonomia no exercício de seu próprio livre-arbítrio. O filho mais novo, então, reclamava sua liberdade de jovem, embaçada supostamente pela imagem do pai.
O pai, logicamente, não nega. Afinal, quem faz este tipo de solicitação se lança a exercer seu livre-arbítrio em plenitude, no desbravamento de novos horizontes e possibilidades de auto-realização. Mas resta uma pergunta: será que o jovem está preparado para assumir suas responsabilidades se nem ao menos tem a idéia de sua dimensão?
Acontece o previsível. O rapaz experimenta o inseguro, aquilo que nunca tinha alcançado antes, é certo. Mas não soube como reagir aos desafios que as próprias escolhas impunham à sua existência. Sua liberdade não é consciente, tampouco responsável. E, como agravante, a própria vaidade e o orgulho excessivo o impedem de recuar e tomar rumo a uma nova direção.
A miséria e a fome se alastravam, como as conseqüências inesperadas assustam a vida daqueles que não sabem assumir as próprias responsabilidades.
O garoto ainda desejava se fartar das vagens que os porcos comiam, ao pedir ajuda a outrem. Todos recusavam. É ultrajante como um egoísta trata outro egoísta, que tenta sobreviver ao peso da própria culpa em descoberta, ainda que disposto a submeter-se à lama do pecado.
Após isso, o inesperado acontece. O rapaz reconhece o seu erro. Uma coisa que pode parecer nem tanto fácil, mas fundamental para a mudança de atitude, como também a da própria vida.
O rapaz “... entrou em si, dizendo a si mesmo: Quantos operários de meu Pai têm pão de sobra, enquanto, eu aqui, morro de fome!” (cf Lc 15, 17). Lembrou-se dos confortos que tinha ao lado do único que realmente se importava com ele, que sempre quis protegê-lo e dar-lhe segurança. Em outras palavras, o jovem tomou consciência do tamanho do próprio egoísmo. Se o Pai, ou qualquer outra pessoa o acusasse de injusto ou de egocêntrico, talvez nem refletisse sobre o assunto. Mas foi ele próprio quem descobriu a dimensão de sua imaturidade. Então, se viu forçado a mudar.
Decide voltar para aquele que com certeza estaria à sua espera. O Pai o perdoa sem deixar o rapaz falar todo aquele exercício de humildade que outrora ensaiou. O pai deseja festejar a autodescoberta do rapaz, mais seguro e autoconsciente. Haveria espaço para outros erros? Talvez... Mas, com certeza, o mais novo rapaz sabia a quem recorrer num momento de indecisão, ou de perigo. Some-se a isso o fato de que sua consciência o impediria de tomar atitudes precipitadas.
E este texto fala realmente de nós mesmos, pois a palavra parábola é híbrida de dois radicais: para, que significa ao lado de, e bola que significa além de. Portanto, parábola é tudo aquilo que está além do que se apresenta o lado. Noutras palavras, é tudo o que está além de qualquer comparação. Somos imaturos e nada sabemos, ou muito pouco sobre nós e sobre a vida. Mas podemos crescer frente aos desafios que a vida nos impõe no momento em que nos lançamos conscientemente no exercício da eterna auto-superação.
Contra isso, somente se decidirmos ser o filho mais velho, que não percebeu a grandeza do gesto de verdadeiro acolhimento do Pai, e tinha da figura desse um sinal de dependência, sem nem mesmo se dispor ao conhecimento de si, e tudo aquilo que tal prática impõe. Sempre tomado pelo ressentimento numa vida sem novidades e infeliz.
Portanto, não tenhamos medo em errar, mas nos empenhemos em caminhar lenta e acertadamente. Mudamos quando percebemos quem somos nós e vemos o que realmente precisa mudar, pois sabemos da incerteza do futuro e que a verdadeira vida implica em eterna mudança, em busca da perfeição, que é Deus. E o Pai, não importando o caminho que decidamos percorrer, sempre estará à nossa espera...
Oceanus das Correntezas
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